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Archive for outubro 2009

O ACORDO ORTOGRÁFICO

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Poucas coisas, neste mundo de lutas, se parecem tanto com uma discórdia quanto o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Uma discórdia antiga e até agora insolúvel: há duas décadas, desde que os países integrantes da comunidade lingüística firmaram, em 1990,  um protocolo de intenções, tenta-se colocá-lo em prática, não havendo, inclusive pela resistência de Portugal, certeza alguma de que isso efetivamente aconteça um dia.

 

Na Internet, pelo menos três centenas de artigos, depoimentos e entrevistas de filólogos, lingüistas, escritores e jornalistas testemunham o tamanho do qüiproquó.  (*)

 

Os artigos abaixo são uma amostra de tais divergências. Aquietadas nos vinte anos em que o anteprojeto de Acordo permaneceu como letra morta, eclodiram, sobretudo, a partir janeiro de 2009, quando as mudanças propostas começaram a viger no Brasil, com prazo de três anos para se tornarem obrigatórias.

 

Os editores

www.graphia.com.br 

 

( * ) Um grande banco de dados sobre o assunto, reunindo contribuições de autores africanos, brasileiros e portugueses, pode ser consultado, por exemplo, no verbete “Acordo Ortográfico” da Wikipedia.

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23 de outubro de 2009 at 18:19

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Portugal reage

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Marcos de Castro  (*)

 

Foi uma falsa impressão inicial. Refiro-me à reação — ou falta de reação — dos portugueses quanto ao Acordo Ortográfico que entrou em vigor no Brasil em janeiro.

Lê-se agora que os portugueses reagem (e o fazem valentemente) ao Acordo, que lá, em princípio, entrará em vigor em 2012. Há uma petição correndo as cidades portuguesas em protesto contra o Acordo. No meado de maio último, as notícias aqui chegadas davam conta de que a petição já reunia cerca de 115 mil assinaturas, o que não é pouca coisa num país de minidimensões como Portugal.

 

A petição, com tais números, as pessoas buscando com avidez espantosa acrescentar-lhe a sua assinatura, hoje corta Portugal de Lisboa ao Porto e a Coimbra, e do Ocidente ao Oriente. Bem feito, é o caso de dizer às autoridades dos dois países que assinaram o Acordo do modo mais elitista possível.

Até onde se sabe, nem pelas casas do povo — os parlamentos — o Acordo passou. Alguém dirá que se trata de um assunto técnico. Mas desde quando assuntos técnicos estão livres do exame dos representantes do povo? Se o assunto é técnico, no mínimo técnicos deveriam ser consultados. E técnicos nesse caso são professores de português, são escritores. Um inquérito entre eles teria de ter sido feito.

Conheço professores de português que desde janeiro estão pagando todos os seus pecados. Um deles — competentíssimo, por sinal — me dizia que, agora, sempre que encontra nos jornais e revistas o plural do substantivo “ideia” (assim descarnado, nu, sem o velho acento brasileiro no “e”) lê “ideais” e vice-versa, pois está difícil distinguir um do outro à primeira vista.

Bem, o Acordo foi elitista, dissemos há pouco. Passou por cima de todo mundo, do povo e dos representantes do povo. Mas em Portugal, agora, povo e elite protestam. A petição, que ora corre de ponta a ponta “a ocidental praia lusitana” e que consegue expressivo e, dados os números, quase inacreditável apoio popular, tem um escritor, Vasco Graça Moura, como um de seus maiores incentivadores.

E há outros, muitos outros homens de letras a combater esse Acordo inútil (para dizer o mínimo), como alguém o definiu com perfeição recentemente. E os há não apenas em Portugal, mas por aqui também. O admirável romancista Carlos Heitor Cony — um acadêmico, por sinal — é um deles, que até mesmo em artigo de jornal (“Um acordo bestial”) já manifestou sua opinião, cheia de bom senso e sabedoria. Eu ia acrescentar espirituosa, mas falar em Cony e em texto espirituoso é redundância.

Parece que não há mais tempo para discutir o Acordo. Sim, não há mais tempo para discutir esse pífio Acordo que aí está, assinado oficialmente pelas mais altas autoridades representativas de cada país. Mas, não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, diz a velha sabedoria popular. Como se chegou a assinar este Acordo, é perfeitamente possível que se venha a assinar outro, o qual tornaria caduco o texto infeliz. O que seria benéfico para Brasil e Portugal, pois as coisas voltariam ao estado de graça em que se encontravam antes.

Estado de graça, sim, porque a nossa ortografia era (como dói o verbo no imperfeito!) boa, muito boa, e vigorava há 66 anos (desde 1943), coisa rara no Brasil. E estado de graça não apenas porque todos nós, leigos e especialistas, já nos acostumáramos com ela, mas sobretudo porque aquela ortografia respondia a uma caminhada segura da língua, nada tinha de artificial, de coisa feita nos salões. O trabalho de Gonçalves Viana, que desembocou na ortografia oficial portuguesa de 1911, era um trabalho científico, não nasceu do mudarpormudar. Nem da cabeça de uns poucos: ao ser aprovado, passou pelo crivo da mais brilhante geração de filólogos que o país já teve (dirão alguma coisa ao leitor sem dúvida os nomes de D. Carolina Michaëlis e de Leite de Vasconcelos).

Toda essa geração tremeu na cova ao ouvir falar, lá do além, no novo Acordo, que entre nós vai vigorando aos trancos e barrancos desde o início deste ano, mas que em Portugal começa a encontrar uma reação de dignidade, de amor à língua, que se espalha pelo país todo, entre povo e elite. Isso pode dar fado por lá, e atravessar o Atlântico para dar samba por aqui.

 

 (*)  Jornalista e escritor, publicou, entre outros livros, A Imprensa e o Caos na Ortografia, Rio, Record, 5a. edição, 2008. “Portugal reage” foi publicado originalmente no jornal O Globo em 9 de junho de 2009. 

 

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23 de outubro de 2009 at 16:35

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O orphanato inglez e o asylo portuguez

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Glauco Mattoso  (*)

 

Outro dia um amigo me criticava pelo quixotismo de defender sozinho a “velha” orthographia. Respondi que as reacções collectivas começam assim, pela iniciativa isolada de algum inconformado, ao qual os demais
vão adherindo. E comparei minha attitude ao que acontece na lingua ingleza. Elles não reformaram a orthographia e não se preoccupam com o desapparecimento do “PH”, mas a universidade de Oxford quer evitar que certas palavras caiam em desuso e sumam do vocabulario fallado ou escripto. Para isso foi creado um sitio chamado “Save the Words” (savethewords.org), que estimula o emprego de palavras em risco de extincção. Elles rastreiam a rede para detectar vocabulos que, de tão raros, nem são reconhecidos pelos correctores orthographicos dos programmas de edição digital. Depois de seleccionadas pelos lexicographos, as palavras “esquecidas” são colladas no sitio, donde berram em audio para que os internautas as adoptem, como si fossem creanças desamparadas. Quem decide adoptar uma dellas tem que se registrar no sitio e se comprometter a utilizal-a, tanto nas conversas quanto na correspondencia. O sitio até emitte um certificado de adopção para cada voluntario.

 

Ora, por que não crearmos, em portuguez, um sitio que estimule o emprego da orthographia etymologica? Afinal, si os latinistas cultivam uma lingua “morta”, ou os esperantistas uma lingua “artificial”, por que não reconhecermos que o cultivo duma escripta “archaica” pode ter sua importancia cultural, que vae muito alem da simples rebeldia individual dum poeta cego?

Sciente estou de que poucos têm accesso às fontes de referencia prequarentistas, como um “Diccionario  contemporaneo da lingua portugueza” (1881) de Caldas Aulete, ou um “Manual orthographico brasileiro” (1921) de Julio Nogueira, e egualmente poucos têm erudição grecolatina capaz de “reconstituir” a graphia antiga a partir da actual forma phonetizada. Por isso estou preparando um minimanual, que intitulei “Decalogo mattosiano”, ou “Promptuario practico do systema etymologico”, para synthetizar regras e exemplos, excepções e casos ommissos. Logo disponibilizarei esse breviario. Por emquanto, vamos commentar o que está vigorando.

Dos trez cavallos de batalha na nova reforma (trema, accentos e hyphen), o mais tranquillo é o trema. Concordando ou não, todos sabem onde elle existia e passam a saber que elle deixa de existir. Ponto para o systema etymologico, pois antes de 1943 o trema nunca existira. Typica notação allemã, apparecia somente em adjectivos como mülleriano”, mas era extranho ao portuguez. Nem por isso alguem iria pronunciar “linguiça” como “preguiça”, nem “tranquillo” como “aquillo”. Bastava o costume para orientar o ouvido e a escripta. Nenhum drama, portanto, nesta queda do trema, um signal que jamais deveria ter entrado na lingua.

Ja quanto ao hyphen a porca torce o rabo, e teremos panno para manga. Antes de analysarmos os innumeros casos particulares, comtudo, importa resalvar que a nova reforma até que tentou uniformizar, mas acabou escorregando nos mesmos problemas provocados pela bagunça do systema phonetico arbitrariamente implantado em 1943, que ja fora remendado em 1971. Na raiz de tudo está a incoherencia de qualquer escripta que se pretenda phonetica, contrapondo-se à intransigencia de qualquer escripta que se pretenda etymologica. Vamos destrinchar.

Na briga entre etymologistas e phoneticistas, as consoantes insonoras e geminadas são o maior pomo da discordia. Palavras como o substantivo “penna” e o verbo “annullar” dão bom exemplo. Para os etymologistas (como eu), os dois “NN” de “penna” são fundamentaes para entendermos que a “pena” com um “N” só é dó, emquanto a “penna” com dois “NN” é a antiga canneta. Da mesma forma, “annullar” (tornar nullo) nada tem a ver com o dedo anular (com um “N” e um “L” só), mas para os phoneticistas toda lettra dupla tinha que se reduzir a uma, de modo que as palavras ficassem enxutas e leves. Mesmo sem concordar, eu até entenderia, si o criterio fosse geral. Succedeu, porem, que os proprios reformadores não se entendiam: queriam eliminar o “H” de “humidade” mas não de “humanidade”, embora graphassem “deshumanidade” sem “H”. Queriam tirar o “H” de “herva” mas não de “herbivoro”. Queriam trocar o “X” de “dextra” por “S”, mas não tiraram o “X” de “extra”. Ou reformassem duma vez, ou deixassem como estava! Ahi veiu o peor:  emquanto tiravam lettras dum lado, doutro accrescentavam lettras onde não havia, como um “S” a mais em “antiseptico” ou em “asymmetrico”. Que adeanta fazer um buraco para tapar outro? Crearam-se monstrengos como “antissético” e “minissaia”, quando o mais logico seria, aqui sim, usar o hyphen. E a estupidez não parava por ahi: alguns prefixos exigiam hyphen, como “auto”, mas outros exigiam juxtaposição, como “anti”, e tinhamos absurdos como “auto-retrato” coexistindo com “antinazista”. Agora chega a nova reforma e altera “microondas” para “micro-ondas” e “auto-retrato” para “autorretrato”! De novo duplicando consoantes que não são duplas!

Ora, a unica finalidade do hyphen seria justamente evitar essa falsa duplicação de “RR” e “SS”, alem de proteger o “H” que não quizeram supprimir de “anti-horario”. Si fossem realmente phoneticistas, deviam mudar logo para “antiorário”, “orário”, “umano”, “úmido”, “erva”, mantendo o hyphen em “mini-saia”, “auto-retrato”, “anti-sético” e “a-simétrico”. Só assim o raio do tracinho teria alguma utilidade.

Quanto a mim, que faço em taes casos? O systema etymologico não approxima a escripta da falla, de forma que,  dependendo da clareza e do bom senso, cada composto é unido ou separado: “antiseptico”, “asymmetrico”,  “autoretracto”, “antinazista”, “antisocial”, “minisaia”, “microondas”, “bom senso”, “cavallo de batalha”, “sacco de gatos”… Era até melhor ter eu escripto “anarcholitterario” (tudo juncto) ou “livre pensador” e “franco atirador” (separado) do que com hyphen, como fiz no primeiro capitulo. O hyphen é, na verdade, um estorvo cujo emprego devia ser restricto ao minimo exigido pela clareza.

Nós, etymologistas, gostamos de lettras a mais? Sim, mas não inventamos lettras, não collocamos lettra a mais onde ella nunca existiu. Jamais escrevo “antisocial” ou “contrasenso” com dois “SS”. Si eu fosse phoneticista, usaria o hyphen exactamente nesses casos, para favorecer a pronuncia, e prompto. Antes escrever “asymmetrico” que “assimétrico”. Antes “autoretracto” (ou mesmo “auto-retracto”) que “autorretrato”.

Emquanto a maioria simplesmente segue a nova regra sem questional-a, eu convido meus selectos leitores a reflectir que não são só os poetas que têm liberdade para transgredir, mas todos aquelles que pensam no idioma como um filho adoptivo, e não como um pae auctoritario.

(*)  Poeta e tradutor, escreveu, entre outros livros, Cancioneiro Carioca e Brasileiro ( São Paulo, Annablume, 2008). “O Orphanato inglez e o asylo portuguez” foi publicado originalmente em março de 2009 em www.cronopios.com.br. No mesmo endereço eletrônico podem ser lidos mais sete outros artigos de Glauco Mattoso sobre o acordo ortográfico.

 

Written by graphiaeditorial

23 de outubro de 2009 at 16:31

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Arquivem esta reforma! E já!

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Cláudio Moreno  (*)

 

Esta anunciada reforma é ineficaz, amadora e espantosamente prejudicial ao nosso sistema de ensino. Se o Brasil ainda guardar uma pequena reserva de sensatez, vai esquecer esta proposta para sempre e sepultá-la no cemitério das idéias malucas, de onde ela nunca deveria ter saído. Em primeiro lugar, é ineficaz porque não conseguiria alcançar o que pomposamente anuncia — unificar a grafia em todos os países que compartilham nosso idioma. O sistema ortográfico brasileiro e o português são muito parecidos; como dois navios paralelos, singram o oceano sempre na mesma direção, a vinte metros um do outro. A atual reforma conseguiria aproximá-los para dezessete metros — isto é, iria diminuir três metros da distância, a qual, no entanto, continuaria a existir. É muito custo e muito trabalho para muito pouco proveito. Daqui a uns trinta anos, tudo ia começar de novo. Em segundo lugar, é amadora porque pouco ou quase nada simplifica o trabalho de aprender e de ensinar a ortografia; elimina algumas regrinhas secundárias, embaralha ainda mais (se é que isso é possível!) o emprego do hífen e, ironia suprema, quer suprimir o acento de pára (verbo), usado para distingui-lo da preposição para — logo um dos raríssmos acentos diferenciais que teria toda a justificativa para continuar existindo. Em terceiro lugar, causaria um dano incalculável ao sistema de ensino. Hoje convivem brasileiros que foram alfabetizados (1) pelo modelo anterior a 1943, (2) pelo modelo definido pelo Acordo de 1943, (3) pelo modelo modificado pelo Acordo de 1971; já vivemos um quadro suficientemente complicado e não precisamos acrescentar mais uma camada nesse pandemônio. Ortografia precisa de tempo para sedimentação — e isso se conta em séculos, não em décadas. Uma nova reforma aumentaria ainda mais a insegurança que todo brasileiro tem na hora de escrever — insegurança essa, como podemos ver, absolutamente justificada. Parem de brincar com o que não entendem; deixem nossa ortografia em paz! 

 

(*)  Professor e escritor, comenta assuntos referentes à língua portuguesa para o Grupo RBS e é autor, entre outros livros, do Guia Prático do Português Correto – Ortografia (Porto Alegre, LP&M, 2003). “Arquivem essa reforma e já” foi publicado originalmente em outubro de 2008 em http://wp.clicrbs.com.br/ sualíngua/ . No mesmo endereço eletrônico podem ser lidos mais nove artigos de Cláudio Moreno sobre o acordo ortográfico. 

Written by graphiaeditorial

23 de outubro de 2009 at 16:20

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