TEMAS & REFLEXÕES

Página de debates de questões da atualidade

O ACORDO ORTOGRÁFICO

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Poucas coisas, neste mundo de lutas, se parecem tanto com uma discórdia quanto o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa. Uma discórdia antiga e até agora insolúvel: há duas décadas, desde que os países integrantes da comunidade lingüística firmaram, em 1990,  um protocolo de intenções, tenta-se colocá-lo em prática, não havendo, inclusive pela resistência de Portugal, certeza alguma de que isso efetivamente aconteça um dia.

 

Na Internet, pelo menos três centenas de artigos, depoimentos e entrevistas de filólogos, lingüistas, escritores e jornalistas testemunham o tamanho do qüiproquó.  (*)

 

Os artigos abaixo são uma amostra de tais divergências. Aquietadas nos vinte anos em que o anteprojeto de Acordo permaneceu como letra morta, eclodiram, sobretudo, a partir janeiro de 2009, quando as mudanças propostas começaram a viger no Brasil, com prazo de três anos para se tornarem obrigatórias.

 

Os editores

www.graphia.com.br 

 

( * ) Um grande banco de dados sobre o assunto, reunindo contribuições de autores africanos, brasileiros e portugueses, pode ser consultado, por exemplo, no verbete “Acordo Ortográfico” da Wikipedia.

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Written by graphiaeditorial

23 de outubro de 2009 às 18:19

Publicado em Uncategorized

50 Respostas

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  1. Parabéns pela iniciativa. O que me pergunto, porém, é por que começaram a página com esta desastrosa reforma ortográfica, no lugar de discutir a concentração de renda, a dependência tecnológica, o caos urbano, entre tantos assuntos mais relevantes.
    Thiago – Rio de Janeiro

    Thiago

    25 de outubro de 2009 at 11:32

  2. Thiago: mudanças na ortografia, mesmo “desastrosas”, não são irrelevantes para quem escreve ou edita textos.
    Fique à vontade para escrever ou propor autores e artigos sobre os temas mencionados.
    Esta página almeja ser de autoria coletiva.

    graphiaeditorial

    25 de outubro de 2009 at 21:29

  3. Olá, pessoal da Graphia. Desculpem a ignorância: qual é a justificativa que dão para esta reforma? Pelo que sei, ela se limita ao fim do trema (por quê, caramba?), ao retorno das letras w, y e k, e a mudanças (para pior) no uso do hífen e de alguns acentos.

    estela

    27 de outubro de 2009 at 19:35

    • Estela: a justificativa alegada é “unificar” a escrita nos países de língua portuguesa. O que jamais se explicou muito bem é como alterações tão discutíveis e numericamente insignificantes ajudarão na pretendida unificação ou mesmo se ela é desejável e possível, considerada a diversidade das nações.

      graphiaeditorial

      28 de outubro de 2009 at 10:12

  4. Vamos parar de chove-não-molha. Todo mundo sabe que esta reforma é tecnicamente indefensável e lesiva aos interesses da grande maioria, servindo apenas à vaidade e ao bolso de meia dúzia de oportunistas. Os gramáticos e filólogos devem ser, por definição, conservadores. Quando resolvem mudar o mundo e conseguem transformar essa ambição em lei, o mundo continua exatamente o mesmo, talvez um pouco pior, mas todos nós pagamos a conta.
    Massacrada na sua vida cotidiana pela miséria cultural – resultante da combinação da desigualdade de classes com a ruína da escola pública, a grande hegemonia do inglês e o silenciamento da cultura popular pela cultura de massas – a língua portuguesa é mais uma vez agredida pelo Brasil oficial. Não se diga que se trata de matéria irrevogável porque nada na história da ortografia da língua portuguesa no Brasil é irrevogável ou permanente, a começar pelo nome do país, que já se chamou Brazil e assim continua a ser chamado por boa parte da comunidade internacional que não deu bola para nossos reformadores de plantão.

    thiago

    4 de novembro de 2009 at 15:08

    • Thiago: convém relativizar um pouco. Como é que “todo mundo sabe” se você mesmo diz que a língua portuguesa sofre, no dia a dia, um massacre em decorrência da “miséria cultural”? Só uma curiosidade, que talvez nem você saiba e nós mesmos conferimos agora no Google: foi em 1923, há menos de cem anos portanto, que a Academia Brasileira de Letras decidiu solenemente trocar o “Brazil” pelo “Brasil”.

      graphiaeditorial

      4 de novembro de 2009 at 17:31

  5. O Thiago tem razão. Sou engenheiro aposentado e é com tristeza que vejo a maior empresa do Brasil, nascida de lutas históricas inesquecíveis, trair a memória nacional e o espírito da língua por um reles argumento de marqueteiros. Não me venham dizer que um cidadão comum, famoso ou não, pode exercer o direito – aquele que deve ser alegado pela antiga Petrobrás, hoje Petrobras – de escrever o seu nome do jeito que bem quiser. Como se “Pelé” tivesse de virar “Pele” para se dar melhor. Macaquear a língua inglesa abriu quantos novos mercados para a nossa (seria ainda nossa?) multinacional?

    Rodolfo Ribeiro Silva

    6 de novembro de 2009 at 9:43

  6. Rodolfo: encaminhamos as suas indagações não só para a empresa (http://www.petrobras.com.br) como para outras entidades representativas, a começar pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás (AEPET) que mantém até hoje,inclusive na sua página (http://www.aepet.org.br), o acento oficialmente abolido desde a década de 90, no auge das privatizações de empresas estatais no Brasil.

    graphiaeditorial

    6 de novembro de 2009 at 14:51

  7. Olá, Graphia: foi em 1931, e não em 1923, como sugerem ou fica
    parecendo, que o Brasil passou oficialmente a ser escrito com “s”,
    depois de três décadas de muita indecisão e controvérsia, que
    gerou até, em 1920, um livro editado por Monteiro Lobato: O nome Brasil (com s ou com z), de F. Assis Cintra. No seu Diário Secreto, Humberto de Campos, partidário da grafia “Brazil”, testemunha, já no ano de 1929, a longa divergência:
    “Terça-feira, 26 de novembro:
    Apresento na Câmara dos Deputados um projeto mandando adotar nas
    repartições e nas publicações do governo, e nos estabelecimentos
    oficiais de ensino, e equiparados, a reforma ortográfica aprovada
    pela Academia. Para uniformização das regras da mesma, estabeleço,
    em artigo especial, que se escreva Brazil, com Z”.
    Deputado pelo Maranhão e imortal, tanto na Academia quanto no
    Congresso – as duas instâncias em que as reformas ortográficas têm
    de passar antes da sanção da Presidência da República – ele sabia
    muito bem como é que a banda toca. Cito outros trechos do Diário
    no comentário que faço sobre o artigo ‘Portugal reage’.”

    Pedro Ferreira

    10 de novembro de 2009 at 10:31

    • Pedro: agradecemos as observações e esclarecemos. A Academia aprova o nome com “s” em 1923 e Getúlio Vargas oficializa a mudança em 1931. O fato é que, na história da ortografia brasileira, até o nome do país virou campo de batalha, seja por interesses externos seja por cisões internas, e, por três décadas, no começo da República, Brasil e Brazil coexistiram, como mostra o historiador Paulo Knauss em estudo que a Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro publicou em seu número 437, de out/dez de 2007: “O nome do Brasil: usos do passado e política da língua”. Está disponível no seguinte endereço da internet: http://www.ihgb.org.br

      graphiaeditorial

      10 de novembro de 2009 at 15:19

  8. A AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás) continua grafando Petrobrás com acento, porque a retirada do mesmo fez parte do processo que pretendia desnacionalizar a Empresa. Chegaram até a propor a mudança do seu nome para Petrobrax, com o objetivo de facilitar a pronúncia dos compradores; venderam 36% das ações na Bolsa de Nova Iorque por menos de 10% do valor real. Ações judiciais da AEPET e Sindipetro-RS suspenderam esse processo de desnacionalização.

    • Fernando: agradecemos a participação e continuamos aguardando que a empresa também se pronuncie. Para conhecer melhor a posição da AEPET sobre as questões resumidas por seu presidente, acesse http://www.aepet.org.br.

      graphiaeditorial

      11 de novembro de 2009 at 17:31

  9. Está explicado, então, por que a Petrobras (pronuncia-se ainda no
    Brasil “Petrobrás”) é patrocinadora da Academia Brasileira de
    Letras: fica bem na Bolsa de Nova York e no bolsão da nova
    ortografia.
    Brincadeira, amigos editores. Não me censurem.
    Sou apenas um professor falastrão (carga horária de cinqüenta
    horas semanais, no mínimo), que só não fala quanto ganha com medo do
    Imposto de Renda. E porque também está atrás de patrocínio.

    Pedro Ferreira

    12 de novembro de 2009 at 9:51

  10. Pedro: não censuramos. Continue colaborando.

    graphiaeditorial

    12 de novembro de 2009 at 9:57

  11. Li os artigos e os comentários e não encontrei uma palavra sequer favorável à reforma. Isso é um debate ou uma campanha contra? Não há nada de positivo no Acordo Ortográfico?

    Ana Amélia

    13 de novembro de 2009 at 9:55

    • Ana Amélia: suas perguntas são muito oportunas. O Acordo, que é um tratado internacional, e a reforma, já vigente por aqui, são inseparáveis. A reforma não traz, por si mesma, inovações ou aperfeiçoamentos na língua mas, em resumo, é a contrapartida ou a margem de concessão brasileira, estabelecida no Acordo, para a redução das diferenças entre a língua escrita no Brasil e nos outros países signatários, a começar por Portugal, que terá de alterar a ortografia de um número muito maior de palavras e se considera, por isso, em desvantagem. Não havendo adesão efetiva dos demais países, a reforma não se justifica, como há de concordar talvez até o mais categorizado porta-voz das mudanças, o gramático e acadêmico Evanildo Bechara. Neste caso, na hipótese de não implantação dos termos do Acordo por africanos, portugueses e timorenses em seus países, pagaremos os custos das alterações, altos sobretudo do ponto de vista educacional, sem obter qualquer benefício. A entrada em vigor da lei no Brasil antes dos outros, portanto, terá sido errônea ou precipitada. Este risco, possível e com precedentes históricos, é um dos fatores que nos levaram a promover este debate que, se for campanha, não é contra algo ou alguém mas em favor da língua portuguesa.

      graphiaeditorial

      13 de novembro de 2009 at 12:45

  12. Indaguei, através do “fale conosco”, à Academia Brasileira de Letras, quando a instituição se manifestou pela primeira vez na controvérsia sobre o nome do Brasil e recebi a seguinte resposta:
    “A controvérsia gráfica Brazil/Brasil, característica, sobretudo
    do séc. XIX, foi constitucionalmente dirimida em 1891, (por influxo, ou
    mesmo decisão, de Rui Barbosa).”

    Como ficamos: 1891, 1923 ou 1931?

    Luciana

    15 de novembro de 2009 at 12:25

    • Luciana: a Academia, em princípio, não contradiz o estudo do professor Paulo Knauss. Rui (ou Ruy) Barbosa apresentou o seu parecer em 1891, o plenário da Academia aprovou em 1923, e o bate-boca continuou até que, já na República Nova, em 1931, o Brazil enfim se tornou oficialmente Brasil. Mas vamos reencaminhar a questão para que a Academia dirima a dúvida.

      graphiaeditorial

      16 de novembro de 2009 at 9:00

  13. Estou de volta, a pedidos, para continuar a fazer campanha contra esta reforma que desestabilizou mais uma vez a nossa já bagunçada língua. Duas provas de que ela troca hoje por ontem (como amanhã, provavelmente, será trocada por anteontem), são o fim do trema e a ressurreição das letras “k”, “w” e “y”. Parece piada de português: a grande reforma ortográfica anterior, a de 1943, estabeleceu exatamente o contrário – o trema, que inexistia no português do Brasil, foi introduzido, e as três letrinhas citadas foram expulsas do nosso alfabeto. Resultado: escrevia-se, por exemplo, “kafkiano” ou “JK”, como a maioria sobrevive ainda hoje no Brasil: na informalidade.

    Pedro Ferreira

    15 de novembro de 2009 at 14:14

  14. O engenheiro Rodolfo Ribeiro Silva, que me deu razão a propósito do Brazil, tem mais razão ainda, quando lembra o caso da Petrobras, ex-Petrobrás. Como é que o Estado brasileiro continua permitindo que uma empresa sob o seu controle acionário ofenda de maneira tão ostensiva a nossa instituição cultural mais democrática e simbólica que é a língua? Que autoridade temos, com descalabros deste tipo, para fazer os demais países de língua portuguesa embarcarem de verdade neste Acordo Ortográfico?
    Que é, a não ser miséria cultural – e miséria cultural agravada por não resultar de pobreza econômica ou falta de educação mas de pobreza mental – a arrogante declaração de povo colonizado que esta grafia inglesa espalha pelas ruas e pelos meios de comunicação de massa?
    Se quiserem, não respondam, já que a Petrobras não o fará. Só peço que não coloquem entre aspas “miséria cultural”, como se eu tivesse falando de coisa do outro mundo.

    thiago

    16 de novembro de 2009 at 16:43

    • Thiago: agradecemos a nova colaboração. As aspas, em resposta a comentário anterior, não são depreciativas e, diferentemente do trema, escaparam ilesas da reforma ortográfica.

      graphiaeditorial

      16 de novembro de 2009 at 16:47

  15. Transcrevo, para conhecimento de vocês, artigo sobre o Acordo de autoria do professor Gabriel Antunes de Araujo, da Universidade de São Paulo. Publicado no Jornal do Brasil de 24/05/2009, o texto está disponível na internet em http://oanjodaniel.blog.terra.com.br/2009/05/24/e-agora.

    De novo, o acordo

    Gabriel Antunes de Araujo

    Aqui no Brasil, considerávamos as discussões sobre o Acordo Ortográfico tema superado. No entanto, chegam de Lisboa notícias sobre a reabertura do tema pelo Parlamento, instigado por abaixo-assinado de mais de 100 mil peticionários que pretendem anular a reforma. A petição diz que o acordo é impreciso, ambíguo e anticientífico. Os portugueses têm razão.

    Os argumentos dos defensores da anulação do acordo são razoáveis: a reforma não auxiliará no combate ao analfabetismo e nem ajudará o português a se tornar uma língua internacional. Não será a abolição de tremas ou regras de emprego do hífen que tornarão a tarefa de alfabetizar mais simples ou a língua portuguesa mais prestigiada. A língua inglesa convive com as normas britânica e a norte-americana: isso não impediu que se tornasse global e que o analfabetismo, nestes países, fosse praticamente erradicado. Além disso, o acordo carece de embasamento científico e coerência interna.

    Há várias línguas (inclusive no Brasil) que fazem uso de ortografias científicas. Seguem o princípio da univocidade entre o som e o símbolo gráfico (a letra). Se uma reforma ortográfica (cientificamente embasada) fosse proposta, as alterações tornariam a língua portuguesa escrita quase irreconhecível. Por outro lado, a ortografia reflete momentos históricos distintos na criação de palavras e na incorporação daquelas de origem estrangeira. Uma reforma não pode ignorar essa história.

    Os portugueses, por exemplo, reclamam da eliminação das consoantes “mudas”, como em óptimo e acto. Argumentam que eliminá-las, sem eliminar outras consoantes mudas é incoerente. Entramos, aqui, na discussão sobre o elo etimológico: algumas palavras são grafadas do jeito que são para se preservar uma ligação com o passado da palavra. Os portugueses alegam falta de coerência. Estão corretíssimos.

    Porém, não têm razão quando afirmam que o acordo é uma concessão ao português do Brasil. Quais são os argumentos para embasar esta afirmação? Não os há. É apenas uma impressão, sobretudo porque a iniciativa partiu de entidades brasileiras e sugere-se que o acordo visa beneficiar editoras brasileiras que buscam acesso ao mercado livreiro luso-africano. Os portugueses podem conseguir mais aliados se deixarem de lado o argumento xenófobo e se concentrarem na ausência de coesão interna. Em oposição ao famigerado acordinho, há duas opções: uma reforma ortográfica ampla ou deixar como está. Portugueses preferem a segunda e brasileiros parecem não se importar com nenhuma.

    auxiliadora

    16 de novembro de 2009 at 17:07

  16. Auxiliadora: a colaboração é ótima e agradecemos. Professor na área de Filologia e Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas da USP, Gabriel Antunes de Araujo organizou, entre outros livros, A Língua Portuguesa no Japão (São Paulo, Paulistana, 2008).

    graphiaeditorial

    16 de novembro de 2009 at 17:16

  17. A ampliação do debate sobre o Acordo Ortográfico pode esclarecer algumas questões e fazer a diferença. É muito boa a iniciativa de vocês. Temos publicado algumas coisas na revista sobre o assunto. O que salta aos olhos é a sua completa falta de sentido, mas ainda é possível nos livrarmos dele.

    Marcio Salgado

    18 de novembro de 2009 at 11:09

  18. Marcio: vamos ampliar, então, o debate. A revista referida é: http://www.joaodorio.com

    graphiaeditorial

    18 de novembro de 2009 at 11:22

  19. O professor Gabriel Antunes de Araujo chegou ao cerne da questão: o inglês se tornou hoje língua de prestígio e influência universal sem apagar, como se pretende aqui, com canetadas, as diferenças nacionais. Seu artigo, conciso e bem fundamentado, é uma prova de que a universidade tem muito a contribuir neste debate. Por que, até agora, se calou?

    Pedro Ferreira

    18 de novembro de 2009 at 11:50

  20. Pedro: transferimos a sua pergunta a quem ela foi feita.

    graphiaeditorial

    18 de novembro de 2009 at 11:53

  21. Caso esse acordo ortográfico tenha êxito, o que não acredito, entendo que o único ponto realmente positivo seja mesmo a unificação da escrita entre os países de lingua portuguesa. De repente, essa “reforma” vai acabar acontecendo só aqui no Brasil; o que, a meu ver, não faria muito sentido. Se dependesse de mim, deixaria como está.

    Francisco Paiva de Carvalho

    19 de novembro de 2009 at 13:07

  22. Francisco: agradecemos a participação. Mineiro de Pará de Minas, Francisco Paiva de Carvalho é autor de A Estranha Casa do Jabuti Cascudinho (Prêmio SESC do Distrito Federal, em 2009), entre outras histórias para crianças.

    graphiaeditorial

    19 de novembro de 2009 at 14:19

  23. Leiam o Francisco Paiva de Carvalho, e leiam Monteiro Lobato, não só o escritor e editor mas o precursor, perseguido e preso por isso, da Petrobras ( no Brasil, viva a língua portuguesa, pronuncia-se “Petrobrás”). Me refiro, no primeiro caso, especialmente ao artigo “O dicionário brasileiro”, da segunda década do século XX, que zomba dos gramáticos, dos filólogos e dos dicionaristas que ambicionam ser donos da língua, obra e patrimônio do povo. Está na Obra Completa,de 1956, da editora Brasiliense, no volume que junta A Onda Verde a O Presidente Negro, um livro recentemente muito festejado porque profecia, em plena opressão racial norte-americana, que os Estados Unidos serão em 2028 governados por alguém semelhante a Barack Obama.

    thiago

    24 de novembro de 2009 at 12:37

  24. Thiago: agradecemos mais uma vez a contribuição muito útil. Pioneiro na exploração do petróleo no Brasil, Monteiro Lobato conta as dificuldades, tanto com o governo brasileiro quanto com as multinacionais concorrentes, para levar avante seus projetos no livro O Escândalo do Petróleo e Ferro.
    O artigo citado, que tem com tema a necessidade de se elaborar um dicionário brasileiro que incorpore neologismos e termos regionais não contemplados pelos dicionários portugueses então dominantes, é exemplar também no caso das discussões sobre unidade e diversidade nacional de uma língua. O trecho inicial:

    “Assim como o português saiu do latim pela corrupção popular dessa língua, o brasileiro está saindo do português. O processo formador é o mesmo: corrupção da língua mãe. A cândida ingenuidade dos gramáticos chama ‘corromper’ ao que os biologistas chamam ‘evoluir’.
    Aceitemos o labéu e corrompamos de cabeça erguida o idioma luso, na certeza de estarmos a elaborar uma obra magnífica. Novo ambiente, nova gente, novas coisas, novas necessidades de expressão: nova língua.
    A nova língua, filha da lusa, nasceu no dia em que Cabral pisou no Brasil. Não há documentos, mas é provável que o primeiro brasileirismo surgisse exatamente no dia 22 de abril de 1500. E desde então não se passou um dia talvez em que a língua do reino não fosse na colônia infiltrada de vocábulos novos, de formação local, ou modificada na significação dos antigos.
    Hoje, após 400 anos de vida, a diferenciação está caracterizada de modo tão acentuado, que um camponês do Minho não compreende nem é compreendido por um jeca de S. Paulo ou um gaúcho do sul.
    Quer isto dizer que no povo – e a língua é um produto puramente popular – a cisão já está completa.
    Nas classes cultas a diferença é menor, se bem que acentuadíssima, sobretudo na pronúncia e no emprego de palavras novas. Até arcaismos lusos ressuscitaram cá e são correntes de norte a sul. Um deles foi tomado como brasileirismo: o emprego do pronome ‘ele’ como complemento direto. Ora, isso é coisa velha, forma anterior ao descobrimento do Brasil. Dizem os escabichadores de antiqualhas que é de uso corrente nos cancioneiros, na Demanda do Graal, no Amadis, etc. E citam em Fernão Lopes muito ‘viu ela’, ‘nomeamos ele’, etc., – de Fernão Lopes! um dos grandes pais da língua lusa.
    Não é brasileirismo, pois, essa forma velha. É um lusitanismo ressureto na colônia.”

    graphiaeditorial

    25 de novembro de 2009 at 9:43

  25. Monteiro Lobato previu não só que havia petróleo no Brasil, contra os interesses dos irmãos do norte, mas também antecipou Saussure e a lingüística descritiva. Só falta agora alguém encontrar em Gil Vicente, João de Barros ou em Camões as balas traçantes que estão sendo disparadas contra a norma culta da língua, com a ajuda diária, enfática, autoritária, repetitiva dos meios de comunicação de massa: o fim das desinências de plural dos substantivos (“as coisa”, “as criança”, “as compra”, “os polícia”) e da flexão de segunda pessoa dos verbos (“tu vai”, “tu tá ligado?”, “tu me ama?”).

    Pedro Ferreira

    28 de novembro de 2009 at 16:43

  26. Pedro: quem dera, nesta altura, fossem só balas traçantes.

    graphiaeditorial

    30 de novembro de 2009 at 12:22

  27. Li domingo passado no Veríssimo: “Sou a favor da reforma ortográfica, só fiquei com um certo remorso por nunca ter usado o trema. Não era implicância ou preconceito, era apenas um lapso, como o de nunca ter usado a palavra “outrossim” num texto. Outrossim (finalmente!), gostei da eliminação do circunflexo, um ridículo chapeuzinho tão fora de moda quanto o turbante.
    Mas nunca ter usado o trema, aquela mordidinha de vampiro em cima de certos “us”, foi imperdoável. Agora é tarde.
    Sou contra o aquecimento global, a favor do aleitamento materno, contra a hipocrisia e a prepotência, a favor da paz entre as nações e, não me perguntem por quê, contra água na Lua.”
    O acento circunflexo acabou?

    Violeta

    1 de dezembro de 2009 at 9:37

    • Violeta: o chapeuzinho continua como mostra o próprio texto citado. Não acabou o circunflexo nem tampouco, como vê, o humor do cronista.

      graphiaeditorial

      1 de dezembro de 2009 at 9:51

  28. O que mais incomoda nesse acordo, além da rapidez com que foi aprovado (por que não usam essa competência toda para aprovar leis de incentivo à cultura e à educação?), é a forma como irão lidar com ele.

    Sei que a intenção é unificar. Mas o que vejo é o caos iminente com o aumento da diferença entre os que retêm o conhecimento e os que vivem às margens dele, sem acesso às informações. O sistema de ensino terá apoio e estrutura para se adaptar?

    E os que não freqüentam mais uma sala de aula (ou nunca freqüentaram), sem meios de se atualizar, serão lembrados, ou continuarão esquecidos por um acordo sobre o qual sequer tiveram o direito de opinar?

    O que vejo é uma nação tentando outra vez mudar seu idioma, quando ela ainda sequer conseguiu ensiná-lo direito.

    Tatiane S.

    1 de dezembro de 2009 at 22:44

  29. Tatiane: o Acordo, acertado em 1990 dentro dos salões acadêmicos do Rio e de Lisboa, à revelia da opinião pública dos países de língua portuguesa que o subscreveram, sobretudo os africanos, sequer tem o mérito da rapidez, porque até hoje não se efetivou. Rápida, mas no sentido de apressada, ligeira, impensada, foi a decisão brasileira de cumprir sozinho um tratado internacional, assumindo todos os riscos e custos, na expectativa de que os demais um dia também o façam. No mais, você tem toda a razão: esta é uma nação que muda constantemente a própria língua, antes de cumprir o dever constitucional de ensiná-la a seu povo.

    graphiaeditorial

    2 de dezembro de 2009 at 9:42

  30. Li na revista Piauí 37, de outubro de 2009, a seguinte nota da redação:
    “Exauridos pelo combate, cheios de cicatrizes e circunflexos de guerra, rendemo-nos às regras da nova ortografia a partir desta edição. Derrotados, ao menos nos poupamos de ter de explicar, a cada mês, por que consideramos a reforma uma cretinice colossal”.

    Diante de adesão tão cheia de estilo fiquei aqui matutando.
    Quem pedia explicações cansativas à revista – os leitores, os anunciantes, os gramáticos? Por que a mídia brasileira se mostrou tão obediente à reforma, se o prazo legal para acatar as novas regras é de mais três anos, a contar de janeiro de 2009? Alguém na imprensa brasileira ainda se dispõe a desobedecer (enquanto pode) ou, pelo menos,a dar explicações?

    thiago

    3 de dezembro de 2009 at 18:00

    • Thiago: encaminharemos as suas indagações para a Associação Brasileira de Imprensa e para a revista Piauí.

      graphiaeditorial

      3 de dezembro de 2009 at 19:17

  31. Nada é estático. Tudo se modifica, inclusive os minerais, quanto mais uma língua. Mas se modifica devagar. Uma pedra leva séculos para virar areia. Florestas levam milênios para se transformar em petróleo. Por que, de uma só tacada, devemos modificar a maneira de se escreverem palavras, deslocando acentos para lá e para cá, suprimindo-os ou criando-os, cortando letras, tudo de uma vez só, exigindo a edição de novos dicionários, novos textos escolares, acarretando despesas e incômodos desnecessários. Essas reformas drásticas, algumas para “simplificar” as palavras, outras para uniformizar a escrita entre Brasil e Portugal, nada mais fazem do que desinformar e dificultar o aprendizado e a escrita. Minhas irmãs escreviam alphabeto, passaram a escrever exotèricamente e cinqüenta, mas agora, aos oitenta e muitos anos, têm de escrever alfabeto, exotericamente e cinquenta. Já o inglês e o francês que aprenderam na adolescência não sofreram modificações. Têm dúvidas sobre como escrever português, mas não sobre como escrever aquelas duas línguas estrangeiras.
    Uma das desculpas para modificar a ortografia portuguesa é a uniformização da escrita entre Portugal, o Brasil e alguns países africanos. Eu não sou um estudioso da matéria e não poderia dizer com certeza se existem acordos semelhantes entre a França e a Inglaterra e suas respectivas ex-colônias. É um tema a ser desenvolvido por quem aprecie e conheça o assunto.
    Nós temos dois caminhos a seguir: ou deixamos aos portugueses, criadores da língua, o cuidado com a ortografia e nos adaptamos a eles ou nos desvinculamos de Portugal e seguimos nossa trilha.
    A ortografia, aliás, não é o grande problema para portugueses e brasileiros entenderem-se uns aos outros. Não é porque um escreve facto e o outro fato, que vamos nos desentender. A grande diferença entre as duas línguas está na construção das frases, nas palavras existentes ou inexistentes num ou noutro país. Mas ao cabo, sempre nos entendemos, como os ingleses aos norte-americanos, aos canadenses, aos australianos.
    Nesse contexto, eu sou absolutamente contrário à “tradução” para o “brasileiro” de livros de autores portugueses, como se não entendêssemos o que lá se publica. Bem faz o grande Saramago em não tolerar tal coisa, pois enquanto os acadêmicos esforçam-se para uniformizar a língua, as editoras teimam em dividi-la.
    O tema é vasto e complexo. É a luta entre etimologistas e foneticistas e até lembra a discussão tão em voga nos séculos dezenove e vinte entre evolucionistas e criacionistas. Alguns querem que as palavras tenham evoluído do latim para suas atuais formas. Outros não se importam com suas origens, apenas querem que soem bem.

    Guy Pinheiro de Vaconcellos

    8 de dezembro de 2009 at 6:50

    • Guy: agradecemos as observações oportunas e pertinentes, em especial no paralelo entre a língua portuguesa e o francês e o inglês.
      Vivendo desde a infância no exterior na companhia dos pais, também diplomatas, o embaixador Guy Pinheiro de Vasconcellos serviu em postos da África, América Latina, Europa e Oriente Médio e é autor dos livros Passagens pelo Absurdo e Triângulo Espacial.

      graphiaeditorial

      8 de dezembro de 2009 at 8:40

  32. Está no Globo, de 02/12/2009, Segundo Caderno, coluna Gente Boa:

    “Portugal se dobra

    O acadêmico Evanildo Bechara recebeu anteontem email da ministra Gabriela Canavillas, da Cultura de Portugal, dizendo que o acordo ortográfico começa a ser implantado no país a partir de primeiro de janeiro.
    Palavras como “contacto” e “assumpto” serão escritas como no Brasil.

    Portugal se dobra/2

    A Academia Brasileira de Letras recebeu com grande alívio a mensagem da ministra, pois o acordo, com a primeira etapa já instalada desde o início do ano no Brasil e nas ex-colônias lusas na África, tinha enorme resistência dos intelectuais portugueses.”

    Que o alívio seja tão grande e proveitoso quanto as lições do passado.
    A história do malogro de todos – TODOS – os acordos ortográficos já assinados com Portugal, entre 1911 e 1945, pode ser recordada, por exemplo, no livro A Formação Histórica da Língua Portuguesa, de Francisco da Silveira Bueno.
    Até 1911 – quando Portugal tomou a iniciativa de fazer a sua primeira reforma ortográfica, que acabou não sendo acatada pelo Brasil – não havia interferência nem do Estado nem das academias de letras na escrita da língua.
    Desacordo, um a zero.
    O problema ortográfico só retornou na década de 30: as duas academias de letras, a do Brasil e a de Portugal, firmaram um acordo em 15 de junho de 1931, ratificado depois pelo governo brasileiro através do decreto 20.108. A lei não pegou, persistindo as diferenças nos vocabulários ortográficos publicados na década seguinte em ambos os países.
    Desacordo, dois a zero.
    Em 05 de dezembro de 1945, novo acordo foi aprovado, após sucessivas reuniões acadêmicas no Rio e em Lisboa, oficializando-se no Brasil através do decreto-lei número 8268. Considerado inexeqüível, depois de muita controvérsia nos dois países, virou mais uma lei que não pegou. Até mesmo a Constituição do Brasil, a de 1946, foi escrita e publicada fora da lei pois seus redatores optaram pela ortografia de 1943, então revogada. Ressuscitada depois, a ortografia de 1943, ligeiramente modificada em 1971, manteve-se viva até hoje, ou, mais precisamente, até 2012, semiviva.
    Desacordo, três a zero.
    Silveira Bueno, catedrático de filologia da Universidade de São Paulo, defende no seu livro clássico a diversidade nacional dos sistemas ortográficos mas pondera que, insistindo-se em “unificação”, duas medidas, não observadas antes, seriam indispensáveis para evitar novos fracassos: 1) que os meios de comunicação aceitem e propaguem as novas regras; 2) que as mudanças sejam reduzidas e de fácil execução.
    O governo brasileiro, desta vez, conseguiu, com espantosa rapidez, a adesão da mídia. Resta, entretanto, cumprir a segunda recomendação, ou providenciar dicionários e conversores ortográficos confiáveis para cada usuário da língua. Ou alguém, em sã consciência, já sabe ou perderá tempo em saber todas as regras e exceções de uso do hífen, também chamado, por uma dessas ironias da vida, de traço-de-união?

    Pedro Ferreira

    9 de dezembro de 2009 at 16:46

    • Pedro: agradecemos não só a nova colaboração mas também a remessa do capítulo “Os Sistemas Ortográficos”, do livro de Francisco da Silveira
      Bueno ( A Formação Histórica da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Livraria Acadêmica, 2a. edição, 1958). Um trecho:

      “Um dos pontos mais difíceis de solução é justamente a concordância
      da escrita entre Portugal e Brasil, já que os hábitos lingüísticos
      diferem muito num e noutro território do português. Tal dificuldade
      se tornará insolúvel se a base do sistema for a pronúncia: os timbres
      vocálicos já diferem por tal maneira entre os dois países que será
      impossível determinar grafias perfeitamente aceitáveis. Entre as
      consoantes há também discrepâncias, especialmente no caso das
      consoantes proferidas em Portugal e mudas no Brasil.
      Como a grafia não impede que a língua seja a mesma, a solução mais
      acertada há de ser que cada povo tenha o seu sistema gráfico, assim
      como já tem cada um o seu sistema fonético, o seu sistema sintático,
      aquele já perfeitamente diversificado, este em contínua
      diversificação. Fora deste critério, jamais terminarão as discussões,
      jamais se conseguirá a tão almejada mas desnecessária unidade
      lingüística tão perfeita quanto a quer Portugal embora os fatos não
      confirmem tão grato desejo. O Brasil, literariamente, independente,
      dispondo de temas e de vocabulário desconhecidos em Portugal; com o
      seu sistema sonoro já tão diferenciado que o entendimento, ao
      primeiro encontro, se faz difícil, mormente, da parte dos brasileiros;
      construindo suas frases de outra forma, seguindo nisso as normas aqui
      surgidas e dadas lá como erros, deverá ser também ortograficamente
      independente. Não serão duas línguas caracteristicamente diversas
      porque a morfologia continuará a mesma; serão, porém, como já assim se
      aparesentam, duas maneiras bem distintas de falar o mesmo idioma. Sem
      este alvitre, ficaremos nessa contínua substituição de acordos e de
      desacordos, firmados por Academias que ainda não recebem obediência da
      parte do povo, dos próprios escritores. Será necessário,
      indispensável, que o Governo oficialize o sistema e a Imprensa o
      aceite: sem a sanção oficial e a aceitação dos jornais, nunca se
      conseguirá introduzir reforma alguma ortográfica, seja lá qual for. A
      imprensa é o grande fator, o grande veículo e porque até agora não tem
      adotado os sistemas aparecidos, todos se tornaram inúteis. Para que a
      imprensa, porém, adote, requer-se que os princípios sejam poucos,
      gerais, fáceis de execução. Esperamos que tudo isto seja ainda
      realizado pelo Brasil”.

      graphiaeditorial

      9 de dezembro de 2009 at 19:08

  33. Vamos, com todo o respeito, abreviar: copiaram agora direitinho as recomendações relativas à divulgação e esqueceram os princípios.
    O governo federal, suponho, deve ter sido bastante persuasivo.
    Mas que nenhum engraçadinho, a serviço de agiotas ou de outros muquiranas, se atreva a apelidar a ação de Bolsa Ortografia, visando desdenhar do Bolsa Família, assistencialista que seja mas um dos raros programas, junto com a merenda escolar, que detêm a degradação completa da escola pública, ajudando efetivamente a infância pobre a sobreviver e, quem sabe, até a aprender um dia as novas regras do hífen.
    Só mais uma coisinha: a ABI não vai responder? E a Piauí?

    thiago

    10 de dezembro de 2009 at 18:36

    • Thiago: recebemos hoje do presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Maurício Azêdo, com quem já tínhamos mantido contato telefônico, carta datada de 07 de dezembro próximo passado, de que se reproduz, abaixo, o trecho principal:
      “Conforme o combinado, estou enviando exemplar das edições 338 e 341 do Jornal da ABI, com data de capa de fevereiro e maio de 2009, que se ocupam com largueza da tormentosa questão do Acordo Ortográfico. Chamo sua atenção especialmente para o editorial ‘Ditadura no idioma’, que enfoca o tema do ponto de vista lingüístico e político.”

      O editorial citado é o seguinte:

      “COMO OS LEITORES NOTARAM na edição precedente (número 337, data de capa janeiro de 2009), também nesta edição o Jornal da ABI deixa de cumprir as normas do Acordo Ortográfico dos Países de Língua Portuguesa, escudado em disposição do decreto presidencial firmado em 29 de setembro passado, o qual estabelece o prazo do ano 2012 para a implantação desse pacto.
      ESSE COMPORTAMENTO DA ABI está sendo adotado e será mantido tanto nos veículos e publicações da Casa, como o ABI Online, como na correspondência emitida por seus diferentes órgãos. Ainda agora, a ABI
      está lançando o catálogo da exposição de cartunistas comemorativa do centenário da Casa, numa colaboração com o Centro Cultural Justiça Federal, que franqueou seus espaços para esse importante evento. Trata-se do volume Traços Impertinentes, que reproduz os trabalhos incluídos na mostra e oferece um perfil sucinto dos artistas que aderiram a essa iniciativa da Casa. Como no Jornal da ABI, a grafia dos textos dessa publicação é a boa e sonora forma antiga.
      A rigor a ABI poderia escusar-se de cumprir a ortografia do Acordo como um ato de desobediência civil, uma reação ao caráter totalitário de que ele se tem revestido desde a sua concepção, no começo dos anos 90, até à sua efetivação entre nós, determinada pelo decreto presidencial. O Acordo não se originou de uma necessidade social nem de uma postulação coletiva, que dessem à sua elaboração e aplicação um caráter democrático. Ele nasceu de lucubrações de eminentes mestres, como o lexicógrafo e dicionarista Antônio Houaiss, como fruto de vigílias penosas, ainda que fecundas, a que estes se entregaram com o melhor dos ânimos.
      AO EMPENHO DESSES ESTUDIOSOS juntou-se a preocupação política de homens públicos não menos eminentes, como o Embaixador José Aparecido de Oliveira, que engalanou a sua passagem pelos inúmeros
      cargos que ocupou e ilustrou, entre os quais o de Ministro da Cultura, com o patrocínio de uma obra fadada a ficar na História, não apenas no Brasil, mas também nos países que integram a comunidade lusófona, a começar pela pátria-mãe portuguesa. A criação daí derivada não é um produto coletivo, como seria lógico e desejável, já que a língua não tem donos, mas uma emanação de reduzido grupo de pessoas, daqui e dalém-mar.
      O CARÁTER TOTALITÁRIO REFERIDO ganhou evidência na circunstância de que se atribuiu a uma personalidade, ainda que ornada de títulos e saber que bem justificavam a sua escolha, o poder e a competência de dirimir dúvidas e fixar a forma correta de se grafarem determinados termos,
      especialmente aqueles resultantes do complexo sistema de grafia da língua portuguesa, como os relacionados com hifenação, sua manutenção ou sua eliminação. Se é certo que o titular desse encargo, o admirado filólogo e acadêmico Evanildo Bechara, desincumbiu-se com aplicação e eficácia da missão que lhe foi cometida, não menos procedente é reconhecer que a língua, bem social, patrimônio coletivo, ganhou um donatário, uma espécie de imperador sem trono nem coroa, um senhor de baraço e cutelo, como diria o escritor Lima Barreto. O nome disso é ditadura.”

      graphiaeditorial

      10 de dezembro de 2009 at 19:16

  34. Ao resumir, em ato público, o seu plano de metas – tirar o povo da merda – o presidente Lula recolocou, agora em dezembro, a língua portuguesa no centro da discussão política, conseguindo com uma palavra – ou, como preferem outros, com um palavrão – uma ressonância na mídia e na opinião pública incomparavelmente maior do que conseguiu em janeiro quando mudou, por força de um decreto, o sistema ortográfico brasileiro.
    Uma palavra – ou um palavrão – é o que basta para separar a língua dos gramáticos e dos legisladores, um frio sistema de normas nem sempre aplicadas ou aplicáveis, da língua compartilhada no dia a dia por todos, que é um campo aberto e sem fim de memórias,invenções, afetos, mágoas, rancores, beleza, mistério, diferenças e feridas individuais e coletivas. Mexer nisso, no coração de um povo, e mexer mal, é o perigo de todas as leis e reformas. O Brasil é um campeão desse tipo de mudanças, do ruim para o pior.
    Quero dizer, em síntese, que, muitas vezes, ao romper com a solenidade, o baixo calão é a forma mais clara de fazer alguém pensar não só nos erros alheios mas nos próprios, como já lembrou o gênio de Fernando Pessoa: “Merda! Sou lúcido.”
    Mude a lei, Lula. Ou deixe como estava. E talvez um dia a maioria de nosso povo a aceite e cumpra. Até a Petrobrás.

    Pedro Ferreira

    15 de dezembro de 2009 at 9:52

    • Pedro: agradecemos mais uma vez. A citação de Fernando Pessoa é de célebre poema de Álvaro de Campos:

      “Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
      Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
      Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
      E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
      (Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
      Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
      E romantismo, sim, mas devagar…).

      Sinto uma imensa simpatia por essa gente toda,
      Sobretudo quando não merece simpatia.
      Sim, eu sou também vadio e pedinte,
      E sou-o também por minha culpa.
      Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
      E’ estar ao lado da escala social,
      E’ não ser adaptável às normas da vida,
      ‘As normas reais ou sentimentais da vida –
      Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
      Não ser pobre a valer, operário explorado,
      Não ser doente de uma doença incurável,
      Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
      Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
      Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
      E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.

      Não: tudo menos ter razão!
      Tudo menos importar-me com a humanidade!
      Tudo menos ceder ao humanitarismo!
      De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

      Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
      Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
      E’ ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
      E’ ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

      Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
      Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
      E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
      Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

      Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
      E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

      Coitado do Álvaro de Campos!
      Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
      Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
      Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
      Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
      Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

      Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
      Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

      E, sim, coitado dele!
      Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
      Que são pedintes e pedem,
      Porque a alma humana é um abismo.

      Eu é que sei. Coitado dele!
      Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

      Mas até nem parvo sou!
      Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
      Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

      Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

      Já disse: sou lúcido.
      Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
      Merda! Sou lúcido.”

      graphiaeditorial

      15 de dezembro de 2009 at 17:28

  35. Interrompemos, a partir de hoje, a série de reflexões sobre o Acordo Ortográfico. Ela será reiniciada, porém, sempre que novos artigos e comentários alterem significativamente o conteúdo já reunido, seja acrescentando fatos e informações, seja fazendo correções indispensáveis.
    Agradecemos a participação de todos.

    graphiaeditorial

    17 de dezembro de 2009 at 19:39

  36. Confirmam-se os prognósticos de artigos e comentários aqui reunidos. Em dezembro último, diante da falta de adesão dos demais países de língua portuguesa às mudanças propostas, o governo brasileiro decidiu adiar para o ano de 2016 a obrigatoriedade de se escrever conforme estabelece o Acordo Ortográfico de 1990. Por mais três anos, os brasileiros, alfabetizados ou em fase de alfabetização, continuarão a conviver com duas normas ortográficas simultâneas e divergentes, dois dicionários, duas gramáticas, tal como acontece desde 2009.

    graphiaeditorial

    27 de março de 2013 at 10:02


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