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Portugal reage

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Marcos de Castro  (*)

 

Foi uma falsa impressão inicial. Refiro-me à reação — ou falta de reação — dos portugueses quanto ao Acordo Ortográfico que entrou em vigor no Brasil em janeiro.

Lê-se agora que os portugueses reagem (e o fazem valentemente) ao Acordo, que lá, em princípio, entrará em vigor em 2012. Há uma petição correndo as cidades portuguesas em protesto contra o Acordo. No meado de maio último, as notícias aqui chegadas davam conta de que a petição já reunia cerca de 115 mil assinaturas, o que não é pouca coisa num país de minidimensões como Portugal.

 

A petição, com tais números, as pessoas buscando com avidez espantosa acrescentar-lhe a sua assinatura, hoje corta Portugal de Lisboa ao Porto e a Coimbra, e do Ocidente ao Oriente. Bem feito, é o caso de dizer às autoridades dos dois países que assinaram o Acordo do modo mais elitista possível.

Até onde se sabe, nem pelas casas do povo — os parlamentos — o Acordo passou. Alguém dirá que se trata de um assunto técnico. Mas desde quando assuntos técnicos estão livres do exame dos representantes do povo? Se o assunto é técnico, no mínimo técnicos deveriam ser consultados. E técnicos nesse caso são professores de português, são escritores. Um inquérito entre eles teria de ter sido feito.

Conheço professores de português que desde janeiro estão pagando todos os seus pecados. Um deles — competentíssimo, por sinal — me dizia que, agora, sempre que encontra nos jornais e revistas o plural do substantivo “ideia” (assim descarnado, nu, sem o velho acento brasileiro no “e”) lê “ideais” e vice-versa, pois está difícil distinguir um do outro à primeira vista.

Bem, o Acordo foi elitista, dissemos há pouco. Passou por cima de todo mundo, do povo e dos representantes do povo. Mas em Portugal, agora, povo e elite protestam. A petição, que ora corre de ponta a ponta “a ocidental praia lusitana” e que consegue expressivo e, dados os números, quase inacreditável apoio popular, tem um escritor, Vasco Graça Moura, como um de seus maiores incentivadores.

E há outros, muitos outros homens de letras a combater esse Acordo inútil (para dizer o mínimo), como alguém o definiu com perfeição recentemente. E os há não apenas em Portugal, mas por aqui também. O admirável romancista Carlos Heitor Cony — um acadêmico, por sinal — é um deles, que até mesmo em artigo de jornal (“Um acordo bestial”) já manifestou sua opinião, cheia de bom senso e sabedoria. Eu ia acrescentar espirituosa, mas falar em Cony e em texto espirituoso é redundância.

Parece que não há mais tempo para discutir o Acordo. Sim, não há mais tempo para discutir esse pífio Acordo que aí está, assinado oficialmente pelas mais altas autoridades representativas de cada país. Mas, não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, diz a velha sabedoria popular. Como se chegou a assinar este Acordo, é perfeitamente possível que se venha a assinar outro, o qual tornaria caduco o texto infeliz. O que seria benéfico para Brasil e Portugal, pois as coisas voltariam ao estado de graça em que se encontravam antes.

Estado de graça, sim, porque a nossa ortografia era (como dói o verbo no imperfeito!) boa, muito boa, e vigorava há 66 anos (desde 1943), coisa rara no Brasil. E estado de graça não apenas porque todos nós, leigos e especialistas, já nos acostumáramos com ela, mas sobretudo porque aquela ortografia respondia a uma caminhada segura da língua, nada tinha de artificial, de coisa feita nos salões. O trabalho de Gonçalves Viana, que desembocou na ortografia oficial portuguesa de 1911, era um trabalho científico, não nasceu do mudarpormudar. Nem da cabeça de uns poucos: ao ser aprovado, passou pelo crivo da mais brilhante geração de filólogos que o país já teve (dirão alguma coisa ao leitor sem dúvida os nomes de D. Carolina Michaëlis e de Leite de Vasconcelos).

Toda essa geração tremeu na cova ao ouvir falar, lá do além, no novo Acordo, que entre nós vai vigorando aos trancos e barrancos desde o início deste ano, mas que em Portugal começa a encontrar uma reação de dignidade, de amor à língua, que se espalha pelo país todo, entre povo e elite. Isso pode dar fado por lá, e atravessar o Atlântico para dar samba por aqui.

 

 (*)  Jornalista e escritor, publicou, entre outros livros, A Imprensa e o Caos na Ortografia, Rio, Record, 5a. edição, 2008. “Portugal reage” foi publicado originalmente no jornal O Globo em 9 de junho de 2009. 

 

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Written by graphiaeditorial

23 de outubro de 2009 às 16:35

Publicado em Uncategorized

4 Respostas

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  1. O pior, prezado jornalista, é que a matéria passou pelo Congresso
    nos idos de 90. Passou batido mas passou. É no chão da
    indiferença que as reformas ortográficas florescem ou fenecem no Brasil.
    Quem quiser conhecer um pouquinho os bastidores de uma delas, leia as
    inconfidências do acadêmico e deputado Humberto de Campos, no seu
    Diário Secreto, referente ao ano de 1929. Dois trechos:
    “Quinta-feira, 14 de novembro:
    Sessão da Academia destinada à votação da reforma ortográfica,
    proposta pela Comissão de Gramática, de que faço parte, e por mim
    apresentada há algumas semanas. Displicência geral. Antes do
    início das votações metade dos acadêmicos já haviam
    desaparecido, com os cem mil réis do jeton.
    Suspende-se a votação em meio, após a recusa graciosa do artigo
    que condenava a letra ‘k’, salva pelo engenheiro Luís Carlos, sob a
    alegação de que não saberia escrever “kilometro’ sem ela”.

    ” Quinta-feira, 21 de novembro:
    Sessão da Academia. Deve-se votar, definitivamente, a reforma
    ortográfica. Falo, para encaminhar a votação. Lamento
    a displicência, o desinteresse, o descaso dos acadêmicos por um
    assunto de tal relevância. E proponho não somente que a votação
    seja nominal, mas, também, que se registre na ata o nome dos que
    assinaram o livro de presença, receberam os cem mil réis, e se
    retiraram, como de costume, sem tomar parte nos trabalhos.
    Foi esse o único recurso para obtermos número para as votações
    e, mesmo, certo entusiasmo nos debates.”

    Pedro Ferreira

    10 de novembro de 2009 at 10:32

    • Pedro: Marcos de Castro se refere, por certo, à falta de debates mais recentes, amplos e aprofundados, tanto no Parlamento quanto fora dele.

      graphiaeditorial

      10 de novembro de 2009 at 14:57

  2. Interrompemos, a partir de hoje, a série de reflexões sobre o Acordo Ortográfico. Ela será reiniciada, porém, sempre que novos artigos e comentários alterem significativamente o conteúdo já reunido, seja acrescentando fatos e informações, seja fazendo correções indispensáveis.
    Agradecemos a participação de todos.

    graphiaeditorial

    18 de dezembro de 2009 at 23:55

  3. Confirmam-se os prognósticos de artigos e comentários aqui reunidos. Em dezembro último, diante da falta de adesão dos demais países de língua portuguesa às mudanças propostas, o governo brasileiro decidiu adiar para o ano de 2016 a obrigatoriedade de se escrever conforme estabelece o Acordo Ortográfico de 1990. Por mais três anos, os brasileiros, alfabetizados ou em fase de alfabetização, continuarão a conviver com duas normas ortográficas simultâneas e divergentes, dois dicionários, duas gramáticas, tal como acontece desde 2009.

    graphiaeditorial

    26 de março de 2013 at 20:19


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